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 Fala com Ela ® Teresa Serrano

 

A ideia de estar à espera de um autocarro numa paragem é algo que me aflige muito. Isto porque já tive momentos muito traumáticos nos dez minutos (média) que se espera pelo transporte público. O meu grande receio é que a senhora de sessentas e muitos, que vem a falar sozinha, encontre contacto visual comigo e claro que o monólogo dela passa a um "diálogo" em que eu pelo menos tenho de sorrir ou dizer "sim"...
A conversa pode ter os mais variados temas, mas costuma começar com um olhar de relance para o ecrã que nos indica o tempo que falta e ela dizer "Pfff...Isto é sempre a mesma coisa, andam sempre atrasados", pode a seguir passar para o "...a culpa é do Governo!Isto na altura de Salazar é que era..." mas também pode passar para a lista de doenças"...É uma vergonha que façam esperar pessoas doentes como eu, que tenho muitas dores menina! Tenho uma dor que me apanha aqui a perna (e indica-me o sítio no corpo - e pronto, já estou a olhar, portanto a conversa já é para mim) que mal me deixa andar..." desta temática passa para os filhos que não moram ao pé dela (vá-se lá perceber porquê?!?) ao netinho muito querido e sobredotado (e já estou a levar com a fotografia de um puto em fato de treino a andar de baloiço) o seu querido falecido que lhe faz tanta falta, à vizinha que põe roupa a pingar quando a dela já está seca, ao senhor Alfredo que vai agora visitar ao hospital porque lhe deu uma trombose e não consegue andar nem falar e....Finalmente vislumbro o autocarro no início da rua! É agora que me despeço e deixo-a entrar primeiro - porque as velhinhas adoram entrar primeiro - e vou sossegada para o banco detrás. Entro no autocarro e está cheio que nem sardinha em lata (merda!) fico então com a senhora sentada no seu banco de primeira fila bem encaixadinha no meu sovaco.
(Acham que ela se calou? Of course not!).


Moral da Estória:
Se a distância que têm para percorrer é pouca até ao vosso destino, vão antes a pé. Dá saúde e faz crescer.

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® Teresa Serrano

 

Estás na paragem há já uns bons dez minutos a olhar para ecrã que te informa dos dois minutos que ainda vais ter de esperar. Começa a chuviscar e estás mesmo na junção dos dois abrigos existentes. A mãe obesa decide amamentar a cria no banco atrás de ti, ao teu lado o Cajó que fala sozinho e acaba uma mini enquanto o autocarro não vem e do outro aparecem as velhinhas…muito queridas a falarem da matiné nos alunos de Apolo onde foi a Dona Custódia que "...-ainda está boa para essas andanças". O seu andar à pinguim não deixa antever a corrida que são capazes de fazer para serem as primeirinhas a entrar no transporte coletivo que se aproxima. E se por algum motivo alguém se lembra de dizer:"-Hey! A fila é lá atrás!", ficam habilitados a levar com uma sombrinha na cabeça e a voz doce com que falavam ainda à pouco sobre a Dona Custódia transforma-se num praguejo que vai de "raios-que-ta-partam" para cima.

 
Moral da estória:

A tartaruga sempre venceu a lebre.

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por TERESA SERRANO - este é um blog de experiências do dia-a-dia com um toque de sarcasmo e ilustrado por uma designer que " Quando-for-grande-quer-ser-ilustradora".

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